terça-feira, 7 de julho de 2009

Poesia Não-Erótica Nº2

Um dia acordei em outra erótica tarde,
E descobri poesias eróticas de Drummond de Andrade.
Li algo nelas sobre mulheres na praia de uma cidade,
Que imaginei como cinco, menos uma beldade.

De algum jeito, palavras fazem algo crescer dentro da gente,
Sob o sol sem vida de Ostende, que torna o prazer não presente
De cada letra da nossa vida existente.

Margarida, Margarida, não tires meu coração
Margarida, minha linda, já tiveste tua refeição
Lembre da Dulce, doce de menina.
Estivemos todos juntos na minha caminha.
Meu coração está em ti Maragarida
Mas sei que me traíste em grupos de dez.

Tão triste e agora tão transpassado
Tu, mulher! Deste meu coração de comer
Ao lindo Anonimato
E ele comeu, bebeu e fez de tudo um bocado.

Um comentário:

  1. Registro Civil
    Ela colhia margaridas
    quando eu passei. As margaridas eram
    os corações de seus namorados,
    que depois se transformaram em ostras
    e ela engolia em grupos de dez.

    Os telefones gritavam Dulce,
    Rosa, Leonora, Carmen, Beatriz.
    Porém Dulce havia morrido
    e as demais banhavam-se em Ostende
    sob um sol neutro.

    As cidades perdiam os nomes
    que o funcionário com um pássaro no ombro
    ia guardando no livro de versos.
    Na última delas, Sodoma,
    restava uma luz acesa
    que o anjo soprou.
    E na terra
    eu só ouvia o rumor
    brando, de ostras que deslizavam,
    pela garganta implacável.

    Brejo das Almas (1934)

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